Sentir de tudo

Este texto faz parte da introdução minha tese de doutorado “Convergência na educação: políticas, tecnologias digitais e relações pedagógicas”, recém defendida. Nos 4 anos dedicados ao doutorado os sentimentos são múltiplos, e, muitas vezes, temos a sensação de que não vamos conseguir. Se você está em algum processo de escrita seja de TCC, dissertação ou tese, este texto é pra você. É preciso saber: você não está sozinho e tudo vai dar certo.

Durante a minha banca um dos professores me questionou: “Você se queixou tanto nesta parte do texto o que faria diferente como conselho aos que também estão nesta fase?”

Sei que ele esperava outra resposta mais voltada às questões metodológicas.

Entretanto, só consegui responder: sofrer menos, controlar a ansiedade. Afinal só estaremos pronto para o processo quando o finalizamos.

Sentimentos como parte do processo

Antes de iniciarmos o relatório da pesquisa, consideramos importante expor em algumas palavras sobre parte do processo de investigação. Longe de querer reescrever sugestões, tais quais na obra literária “Como se faz uma tese” de Eco (2014), em que o autor indica caminhos para a elaboração de uma tese; mas talvez mais próximo do que pretendeu Freitas (2001) em seu ensaio intitulado “Viva a tese: um guia de sobrevivência”, em que a autora buscou alertar aos aventureiros no campo acadêmico e científico as adversidades da produção de uma tese. Este preâmbulo pretende, mais do que justificar as possíveis falhas, compreender que o processo de investigação e escrita é também de transformação.

No período de quatro anos, aos quais nos dedicamos ao doutorado, muita coisa acontece, seja em termos pessoais, profissionais ou acadêmicos. Somos sujeitos socioculturais, como nos lembra Teixeira (1996), plenos de corporeidade, vivências, sociabilidade, linguagens múltiplas, espacialidade, concreticidade, pluralidade, ética e ação. Ou seja, um trabalho deste porte carrega o suor e as noites mal dormidas, mas também, a nossa própria identidade e formas de ser e estar neste mundo. Nesses quase 1.460 dias, sentimos de tudo, sensação também lembrada por esta professora durante alguma conversa que tivemos por aí. Sentimentos bons e maus, de otimismo e de pessimismo, de vontade de fazer a melhor tese do mundo e de largar tudo, de estar com a família e amigos, e a cabeça lá naqueles arquivos do computador (a cabeça não para: era preciso dedicar mais umas horas e estou aqui), de vitória e de derrota, de capacidade e de medo; são múltiplos os sentimentos e sensações pelas quais passa um/uma doutorando/doutoranda.

Não é novidade. Sabemos que não é fácil. Prazos a cumprir, textos a entregar, tempo a acabar; é preciso ser forte, erguer a cabeça e acreditar em si. Afinal, mesmo com todos os sentimentos (os de fracasso são aqueles que nos derrubam mais), precisamos ser mais fortes, superá-los. Não haverá ninguém fazendo por você, a não ser você mesmo.

E se tiver bolsa de alguma agência financiadora, a pressão aumenta. Tudo em prol do desenvolvimento científico.

Aquilo que lá no começo nos motivou, por vezes, teve o entusiasmo reduzido no decorrer no caminho, sobretudo, quando sentimos que o labirinto que nos metemos não teria saída. Frustrações. Até que podemos encontrar uma “luz no fim do túnel” e o fôlego é retomado novamente. Ansiedade. Entre conversas com o orientador, a qualificação e a dedicação, segue a vida para os pós-graduandos.

E a tese, já entregou? Esta é uma pergunta que, por vezes, dá volta ao estômago.

E em conjunto com Antunes (2016), indagamos: para que escrever (ou por que resolvi fazer isto?)?

 

[…] Ocupa o tempo inteiro, dá poucas alegrias, os momentos de desânimo são os mais frequentes, é necessário abdicar de muita coisa e existe um sem número de passatempos agradáveis na vida. Para quê escolher o tormento e a angústia? Claro que nessa época não sentia tormentos nem angústias: isso veio depois, queria apenas fechar o brilho na palma da mão. O tormento e a angústia, esses, chegam devagarinho, pé ante pé, quando comparamos o que fizemos com o que queríamos fazer, começamos a pensar: — Não sou capaz não sou capaz. E voltamos ao princípio vezes sem conta. (ANTUNES, 2016, s/p).

 

Não podemos deixar a angústia e a ansiedade nos dominar. Temos de acreditar que somos capazes, temos de dar conta que o que vamos fazer não é o melhor (é cobrança demais), mas temos de entender que o produto entregue é o que formos capazes de fazer (evidente, sempre esperamos que seja, pelo menos, bom). Assim como Borges (2000, p. 52), poeta argentino, que outrora havia sido uma palavra de conforto, diz-nos que cada um “lê o que gosta — porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever”. Isso talvez diminua as angustias e a taquicardia.

Na tentativa de diminuir as nossas, escrevemos este par de palavras não como uma justificativa, mas como um desabafo, que pode ser compartilhado entre aqueles que neste momento precisam entregar um trabalho de conclusão de curso, dissertação ou tese. Os momentos de solidão são imensos e, por isso, pensamos que estamos em um barco sozinho; quando, na verdade, esses sentimentos são bastante comuns entre aqueles que resolveram adentrar na pós-graduação.

A possibilidade de fazer estágio no exterior também provoca emoções. Será possível? Entrar em contato com o professor no estrangeiro, entregar documentos, aguardar e aguardar. Enfim, conseguiu! Paciência é uma palavra recorrente nesses anos. Onde vou morar? Ainda não conheço a cidade. Buscas e buscas por um lugar. Finalmente acertei. Legalizar a sua situação no país, horas em departamentos públicos para resolver burocracias. Saudades da família. Nova rotina, novos espaços, novas pessoas. Aprendizado. Compartilhamento de conhecimentos com professores e colegas. Congressos. Parte da formação tanto no âmbito intelectual, quanto pessoal. Mudanças. Adaptações. Transformações. Sim, este é período cheio delas.

Foi necessário perceber por onde andamos nesses caminhos e de como ele foi se alterando, desde o momento do processo de seleção à finalização da investigação. Acredito que conseguir entender essas transformações e angustias — e saber superá-las — é parte também do processo.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, A. L. Escrever. Revista Visão, em 04/08/2016. Disponível em: <http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2016-08-04-Escrever>. Acesso em: 14 nov. 2016.

BORGES, J. L. Esse Ofício do Verso. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

CAMPOS, F. A. C. Convergência na educação: políticas, tecnologias digitais e relações pedagógicas. 266 p. Tese (Doutorado). Programa de Pós Graduação em Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, 2017.

ECO, U. Como se faz uma tese. 24. ed. São Paulo: Perspectiva, 2014.

FREITAS, M. E. Viva a tese: um guia de sobrevivência. São Paulo: FGV, 2001

TEIXEIRA, I. M. C. Os professores como sujeitos socioculturais. In: DAYRELL, J. (Org.). Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1996.

 

 

 

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