A arte de perder

Outro dia assistindo ao filme Flores Raras, de Bruno Barreto, que conta a história de amor vivida por Eizabeth Bishop e Lota de Macedo Soares, me deparei com a poesia que dá título a este post “A arte de perder” (também já havia sido indicado por minha analista) que compartilho aqui:

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério

Elizabeth Bishop

Fato é que não sei lidar muito bem com as perdas, sejam elas grandes ou pequenas. Perder sempre é um drama.
Em breve irei passar pela experiência de viver fora do país, algo que elegi como prioritário na minha vida e que também faz parte do meu doutorado. Sempre desejei isso, porém, nunca tive a oportunidade. Já viajei para algumas cidades do exterior como turista de poucos dias… viver, claro, será diferente. Não serei turista e terei vários compromissos e o fundamental será o de “enfiar” a cara nos livros.
Haverá vários ganhos certamente, por viver essa nova experiência, por conhecer novos lugares, pessoas, entender o que nas “Zoropa” os pesquisadores tem dito sobre o meu tema de estudo. Parece lindo e que tudo será só de ganhos, como se tivesse ostentando um troféu. Porém, quem está de fora (e às vezes, até para mim mesma) as renúncias não ficam tão evidentes.

Há mais de um ano deixei de ter o “emprego dos sonhos” para me dedicar integralmente ao doutorado. Há vários anos reduzi minha vida social para dedicar aos estudos e sou olhada com olhos tortos por vários colegas de faculdade que ainda estão na mesma “vibe”. Há tempos tenho mais despesas com livros do que cosméticos, roupas e sapatos. O que proporciona algumas histórias engraçadas. Outro dia mostrei o meu armário recém arrumado para a namorada do meu irmão e ele me perguntou: onde você guarda suas roupas?
No final das contas penso que nesse processo todo não perdi tempo nem dinheiro, como vocês podem imaginar, o que ganhei não tem preço.

Neste próximo ano perderei o aconchego do lar, a facilidade de estar na terra natal, os telefones a qualquer hora para minha mãe e tantas outras coisas

Sobre a arte de perder ainda estou aprendendo, pois, essa sociedade que nos desassossega não nos permite perder, temos que ganhar sempre. Perder é um trauma, é algo negativo para muitos olhos. Precisamos ganhar, ganhar, ganhar…Nesse singelo poema de Bishop há vários ensinamentos, e, sobretudo de que é preciso saber perder.

Neste tempo espero perder a minha rabugice, a minha intolerância, as minhas manias mesquinhas, as minhas compulsões e quem sabe a chave de casa.

Anúncios

8 comentários

  1. Mariana Rodrigues · agosto 21, 2014

    Achei maravilhoso esse texto Fê. Me identifiquei! Há algum tempo tenho em mente essa ideia de perda…mas é mais como uma vontade mesmo. De me perder para me conhecer. De perder o meu conforto para sair do lugar comum e me conquistar. Vai fundo que você vai longe. E vai sem medo. Você vai perder bastante, mas vai encontrar muito mais. 🙂

    • fercout · agosto 22, 2014

      Ei, Mell! Adorei ler o sua resposta! Acho que saber perder é mesmo difícil… mas temos que aprender… no fundo eu estou até gostando, os ganhos são outros de crescimento mesmo. Vamos ver como será a experiência vou contar um pouco por aqui.
      E o projeto do blog?

      bj

  2. Caroline · agosto 26, 2014

    Ei Fê! Fiquei pensando o seguinte: acho que por trás de toda perda deve ter um ganho, o difícil às vezes é reconhecer o que ganhamos… ótimo texto para refletirmos sobre isso! A-D-O-R-E-i!

    • fercout · agosto 27, 2014

      Ei, Carol, têm toda a razão! Obrigada por ler e comentar… tenho pensado tanto e essa viagem, além de poder estudar muito, imagino que será uma viagem de autoconhecimento.
      bj bj

  3. Neide Heliodória · agosto 26, 2014

    Entre tantas perdas, você ganha um “lugar” condizente com o seu Desejo e no novo “lugar” há que se experimentar outros olhares sobre todas as coisas: Arquitetura, Ruelas, Cafés, Livros, Bibliotecas, Fados, Fernandos Pessoas (assim mesmo , rsrs, no plural) e tudo isso é parte da construção , não de um “lugar” inteiro, pleno mas um lugar de Desejo e de Falta também. Boa Sorte, e cá estou eu para “chamados analíticos”, quando for necessário. Beijos, Neide Heliodória.

    • fercout · agosto 27, 2014

      Ei, Neide,
      obrigada!!!
      Vou com o coração aberto, tentarei encontrar este “lugar” e também me perder um pouco nas ruelas rs
      Já sinto saudades de nossas conversas. Li o seu comentário várias vezes e em todas elas meus olhos encheram de lágrimas. Vou te escrever sim.
      Bj

  4. Vinicius · setembro 4, 2014

    Só de entender e escrever isso tudo, “já ganhou playboy” …..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s