NINF()MANIACA

Tive a oportunidade de assistir ao filme Ninfomaniaca vol. II no último sábado e me surpreendi com a obra intelectualizada do polêmico diretor Lars Von Trier. Já havia comentado aqui da minha surpresa e admiração por este diretor. Esta obra especialmente é recheada de referências estéticas e literárias difíceis de digerir, por isto, talvez, tanta crítica e tanta falta de compreensão.

Não entendo as pessoas que falam: gostei mais do I. Ou gostei mais do II. Atenção é um filme só. Ele foi dividido, pois, a versão completa alcança 5 horas e meia. Claro, que há uma óbvia necessidade dessa divisão, mais até que o fator tempo de exibição. É a própria divisão cronológica da personagem. No primeiro volume ela conta sobre a sua relação com o sexo desde sua infância, até a adolescência. No segundo volume ela já é adulta, mãe e ainda não suficientemente satisfeita com as relações que se propõe.

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Ninfomaniaca é uma obra psicanalítica e religiosa ao mesmo tempo. A relação de Joe (Charlotte Gainsbourg) e Seligman (Stellan Skarsgård) é um misto de confessionário religioso (no volume II ficamos entendendo que Seligman dedicou parte da sua vida à religião, será ele padre?) e de sala de analista. Isto porque em vários momentos há uma tentativa de Joe de confessar os seus pecados, e, logo, livrar-se de sua culpa, e ao mesmo tempo, há uma tentativa de Seligman fazer digressões analíticas a respeito de cada capítulo contado.

Joe relata que em seu primeiro orgasmo (voluntário) ela visualizou duas imagens santas relacionadas a exaltação sexual e, desde então, se viu presa ao seu próprio desejo de gozar. Ela mantinha relações sexuais com vários homens e eles não a realizavam. Não enchiam os seus buracos. (Vide a psicologia, encher os buracos se refere a necessidade constante de preenchimento, no caso de Joe era o sexo, mais o buraco pode ser a vontade de comprar infinitamente, de usar drogas, de se satisfazer, de cobrir os desejos).  Ela se submete a sessões sadomasoquistas na qual tinha o corpo amarrado e era agredida por um homem que tinha o prazer em espancar mulheres e só volta a gozar depois de receber 39 chibatadas (algo semelhante a crucifixação de Cristo).

Além disso, é inegável que Joe nada mais é de que uma “Loba da Estepe”,  ou o que Hermamm Hesse entendeu como a dificuldade de entender a felicidade das pessoas normais, cuja a alegria não lhe diz respeito. Joe se sente bem com a sua compulsão e não quer se livrar dela, ela se reconhece como tal, e não vê problema nisso. O olhar da sociedade sobre ela é muito forte e faz sentir culpada. Ainda mais por se tratar de uma mulher.

Nesse sentido, algumas questões são levantadas: e se tratasse de um homem, isso seria normal? E se um homem deixasse a família por um desejo seria aceitável? A polêmica é porque ela é uma mulher? E aí, o que você me diz sobre isso?